quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

élégance, mon amour



Ótima sugestão, não só para quem gosta de moda mas aprecia uma bom filme biográfico (coisa que vem se tornando um tanto rara no cinema).

Tinha certa curiosidade pela figura de Coco Chanel, mas nunca foi grande ao ponto de procurar algo sobre ela. Bem, o filme ajudou a curar essa lacuna e conseguiu me mostrar uma das mulheres que, descontados possíveis exageros da adaptação, certamente fizeram diferença, e no melhor dos sentidos.



Coco não só ajudou a livrar as mulheres dos horrorosos espartilhos (que a indústria da moda tenta ressuscitar sem sucesso por meio dos horrorosos modeladores) como foi a primeira estilista a criar e desenhar calças femininas.

Além disso, construiu uma carreira com o próprio talento e decidiu que nunca se casaria. Antes de mostrar uma mulher fria, porém, Coco Antes de Chanel traz uma personagem decididamente humana, com defeitos e uma trajetória nada linear, como parece ter sido a própria Gabrielle Chanel.



Audrey Tatou está excelente no papel, a produção é bem-feita e contida, como uma boa película francesa. Figurinos ótimos e um final muito bonito. Com esse filme, não tem como sair da sala de projeção querendo passar em uma loja elegantérrima e comprar uma passagem para Paris.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

enquanto inspiração maior não vem

"No Grande Hotel, encontrei Mercedes no meu quarto.
“Lavei tua roupa suja e botei para secar no banheiro”, disse Mercedes. Cuecas, camisas e meias estavam dependuradas na barra de alumínio que segurava a cortina do box do chuveiro.
“Para encontrar a roupa tive que revistar as tuas coisas. Você sempre põe a roupa suja dentro da mala¿”
“Você está muito bonita hoje.”
“Bonita¿ Eu¿” Mercedes caminhou na direção do banheiro, para se olhar no espelho. Fui atrás.
“Estou bonita nada”.
“Está linda”.
“Como foi em Quijarro¿”
“Fuentes se encontrou com o outro homem que estou procurando. Rafael. Amanhã vão se encontrar novamente em Porto Suárez.”
“Eu fico melhor com o cabelo solto ou preso¿”
“Solto, sem laquê.”
“Eu já não uso mais laquê.”
“É assim que eu gosto.”
“Você gosta mesmo de mim¿”
“Muitos anos antes de Cristo havia na Grécia um poeta, Arquíloco, que dizia: ‘Tenho uma grande arte: eu firo duramente aqueles que me ferem’.”
“Às vezes você parece maluco. Não sei do que você está falando.”
“Minha arte é maior ainda: eu amo aqueles que me amam.”
Acendi um Panatela. Deitamos na cama.
“Numa história que li, um homem condenado à morte está no patíbulo para ser enforcado e quando o carrasco lhe coloca a corda no pescoço ele pede que lhe dê mais um minuto de vida. ‘Para que queres mais um minuto de vida¿, perguntou o carrasco. Responde o condenado ‘Quero pensar ainda um minuto na Belle Elize’.”
Começamos a brincar um com o corpo do outro, usando as mãos e a boca, entretendo-nos mutuamente, provocando e estimulando o desejo da carne, com a urgência das pessoas acossadas.
“Você também suplicaria por um minuto mais de vida para pensar numa mulher¿”
“Ele era um marinheiro. A Belle Elize era uma escuna, na qual ele navegava pelos mares do mundo."


(Rubem Fonseca - A Grande Arte)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

tchauzinho


...2009. Que 2010 seja melhor. Pra esse blog e pra mim também. Até eu voltar, fiquem com o Papai Noel atleta da paulista. Direto do meu celular.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

madredeus

Não achei Céu de Lisboa um grande filme do Wim Wenders, mas valeu pela descoberta desse grupo português, Madredeus. Essa é a trilha do filme, e a música que achei mais bonitinha.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quem infui sobre o seu bolso

Há um tempinho eu queria postar isso, só agora consigo.
O IPTU em São Paulo vai aumentar mesmo, 30% para imóveis residenciais e até 45% para comerciais.
A proposta anterior, do prefeito Gilberto Kassab (DEM), era de 40% para os primeiros e 60% para os outros.
A proposta do Kassab chegou a ser aceita na Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa da Câmara Municipal de São Paulo.
Quem foi deu o parecer favorável ao aumento abusivo? O vereador Agnaldo Timóteo (PR). Sim, o AGNALDO TIMÓTEO discute a legalidade dos projetos e, com isso, ajuda a decidir os rumos de São Paulo. Saí chocada da Câmara.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

não escrever

Ando meio sem tempo e, principalmente, sem ânimo para escrever no blog. Poderia tentar encontrar algum tipo de “inspiração” para discorrer sobre um assunto qualquer mas, em vez disso, vou deixá-los com esse trecho do Vida de Escritor, do Gay Talese. Enfim pareço ter achado a justificativa perfeita para não escrever sobre as coisas que realmente não valem a pena...

“Por que não estou escrevendo esse livro mais depressa¿ Estarei sofrendo de ‘bloqueio de escritor’¿ Não, você não está sofrendo ‘bloqueio de escritor’, está apenas mostrando bom senso ao não publicar nada por enquanto. Você está mostrando consideração para com os leitores ao não lhes dar texto ruim. Muitos escritores deviam fazer o que você está fazendo – NÃO ESCREVER. Já existe muito texto ruim por aí, para que mais¿ As estantes dos Estados Unidos estão cheias de livros de segunda classe de escritores de primeira. Muitos deles têm um público cativo e por isso os editores publicam suas besteiras. Eles publicam tudo o que vende. Mas os escritores deviam ficar bloqueados. Seria uma coisa boa para a reputação deles, para os custos de produção das editoras e para os padrões do público leitor em geral. Deveria haver um prêmio Nacional de literatura oferecido anualmente a certos escritores por NÃO ESCREVER.”

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

são paulo não pararia por este filme

A descoberta de que, nas terças-feiras, o cinema do shopping na Avenida Paulista, perto da Consolação, cobra apenas cinco reais para filmes nacionais, me fez, há duas semanas, dar um basta na preguiça e reinaugurar minha temporada de idas solitárias às salas de projeção.

Fui assistir a Salve Geral, do Sérgio Rezende, o tão aguardado filme sobre os Ataques do PCC em 2006. Ou os chamados "Crimes de Maio", como preferem as organizações de direitos humanos.

Como estudiosa que fui desses episódios por conta da minha monografia (já se vão dois anos de sua conclusão), presunçosamente resolvi que eu seria uma pessoa "importante" para analisar o filme - ainda que minha opinião não atinja muito além de mim mesma.

Salve Geral conta a história daqueles dias a partir do olhar de uma família de classe média decadente. Lúcia (Andréa Beltrão) é formada em Direito, mas nunca exerceu a profissão, trabalhando como professora de piano. Depois da morte do marido, junto com o filho Rafael (Lee Thalor) é obrigada a se mudar para uma área periférica de São Paulo, mais de acordo com seu novo padrão de vida.

O filho fica revoltado com a mudança, se torna rebelde, participa de um racha, se envolve em uma briga e, acidentalmente, atira contra uma moça, que morre. Ele é detido, condenado a oito anos de reclusão e vai para um presídio – bem um daqueles “simpáticos” e “convidativos” que aparecem na televisão.

Preso, Rafael descobre que uma facção (Comando da Capital - o filme não usa a sigla PCC nem o verdadeiro nome do grupo) domina o presídio e que, para os que tiverem dinheiro, a vida lá dentro não precisa ser tão difícil.

Pedindo uns trocados para a mãe, ele consegue uma cela melhor, onde pode até usar desodorante (o que soa como um luxo se compararmos com as condições das celas superlotadas).

Lúcia, com a prisão do filho, se desespera e resolve que precisa ajudá-lo. Fica amiga de Ruiva, advogada do PCC (Denise Weinberg, melhor atuação do filme), inicia um caso com um dos detentos e é justamente esse envolvimento de mãe e filho com a facção e com o crime que se desenrola o filme.


Enquanto produção, a película é apenas razoável, cenas bem feitinhas, nada mais. Em termos de narrativa, o que realmente chamou a atenção foi a forma como se aproveitou a figura de Marcos Herbas Camacho, o Marcola, sem personalizar. Em vez de usar apenas um ator representando o líder, optou-se por utilizar três personagens diferentes, cada qual pegando, para si, algumas características e frases atribuídas a Marcola.

No início, fiquei um pouco confusa, tentando descobrir quem seria o verdadeiro, mas só depois me dei conta do “truque”. Acredito que a opção foi boa e acertada, porque o personagem “pleno” seria mais interessante do que todo o resto, monopolizando a história. Disso não tenho dúvidas. Também é bom elogiar que os “bandidos” criados não me soaram estereotipados, um risco que sempre se corre e que periga deixar tudo com cara de novela/seriado mal-feito.

De forma geral e apesar dessas qualidades, eu esperava mais de Salve Geral, até por ter sido escolhido o representante brasileiro a uma das cinco vagas que concorrerão ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Aguardava que, pelo menos, pudesse provocar discussões e reações adversas como causou Tropa de Elite, do José Padilha, quando foi lançado (primeiro pelos camelôs) em 2007.

É difícil estabelecer comparações entre os dois, mas um fato é que Salve Geral, no fim das contas, não é um filme interessante. Enquanto em Tropa de Elite existe um Capitão Nascimento, um policial com atitudes e opiniões chocantes para uns, ideais para outros, o filme de Rezende não traz nada de novo: é apenas uma família de classe média amedrontada com o crime e querendo escapar de um pesadelo. Nada mais do que enfadonho. Nem a tentativa de mostrar a organização interna da facção funcionou (razão pela qual alguns podem ter bobamente qualificado a produção como pró-PCC).

Mais do que sobre aqueles dias específicos em que “São Paulo parou”, o filme usa como pano de fundo a história do PCC, o que me parece um indicativo de que seus objetivos são puramente comerciais: arrastar gente para as salas e gerar bons números nas bilheterias.

As “Mâes de Maio”, que tiveram seus filhos assassinados pela polícia em 2006, organizaram protestos contra o filme, que foi considerado desrespeitoso com a verdadeira história das mais de 400 mortes (foram 493 no total, de acordo com dados do IML, sendo que o PCC teria sido responsável apenas por 47).

É apenas uma humilde opinião, mas me parece que o filme não pode ser considerado manipulador e de conteúdo manipulado, já que todos os fatos mostrados realmente aconteceram – queima de ônibus, rebeliões, correria nas ruas etc – e em nenhum momento se afirma que todas as mortes (ou mesmo sua maioria) foram causadas pela facção.

O que se pode questionar é a falta de engajamento, na medida em que poderia ter optado por mostrar todos os episódios, da primeira até a última execução, assim como seus desdobramentos. Mas, ate aí, considero uma grande ilusão acreditar que o cinema ou qualquer outro tipo de atividade com fins puramente comerciais se preste a esse tipo de papel e de luta.

No mais, segue faltando um documentário sobre esses fatos. A lacuna continua aberta. Se algum amigo for fazer, já estou me convidando para participar. E quem sabe, agora, eu me anime a tentar publicar um artigo baseado nas minhas pesquisas com jornais da época.