6.7.07

o valor da vida? depende da vida de quem

Como os temas que mais me mobilizam são violência, segurança, tráfico de drogas, sociedade dos marginalizados e por aí afora, termino por ler muito sobre os tais. E acontecem dois fenômenos: ao mesmo tempo em que me sinto razoavelmente bem-informada, o tal conhecimento teórico me deixa neurótica e esquizofrênica. Como se o mundo fosse um espaço de conspiração permanente.
Não canso de pensar que a importância que a mídia dá às vidas é diferente. Talvez seja exagero meu, mas penso que se o João Hélio fosse um pivetinho engraxate, morador do Complexo da Maré, o caso não ganharia a mesma notoriedade. É claro que o crime foi bárbaro, e a imprensa não podia ignorá-lo. Vão me dizer que a cobertura foi maior por se tratar de uma criança. Concordo. Vão tentar me dizer também que a cobertura aconteceria independente da classe social da vítima. Tenho muitas dúvidas quanto a isso.
Se a criança arrastada fosse mesmo do complexo da Maré, na certa não lembraríamos do nome dela. O “menino João Hélio” talvez fosse o “guri que foi arrastado”. Se tanto.
Nenhum ser humano merece tal crueldade. Mas é preciso lembrar que João Hélio tinha pai e mãe; bem provável, seria alguém na vida. A criança da Maré, possivelmente com um pai morto pelo tráfico ou alvo de bala perdida, não chegaria além da graxa. De repente, viraria braço do Comando Vermelho.
Agora, com esse vigia no Rio de Janeiro, cujo nome corresponderá apenas a um dos “quem” do lead, morto por policiais militares, pergunto o que aconteceria se ele pertencesse à classe média alta do Brasil. A família teria advogados, perseguiria os PMs envolvidos até o fim do mundo. E seria capa dos jornais por dias, semanas seguidas. Talvez até passasse de um mês. Agora, com o Rubineu Nobre, não vai ser isso. Capa dos principais sites do Brasil hoje, a previsão é de que seu assassinato se apague na memória coletiva do povo muito antes do julgamento dos executores.
Pode ser que seja tudo um devaneio. Que eu seja neurótica de verdade. Eu preferia isso, se pudesse escolher. Mas acho que em algum devaneio desses deve existir, pelo menos, uma pontinha de verdade.

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