Não falta linguagem poética e passagens muito bonitas no romance que ganhou o Nobel de Literatura em 1958, um prêmio que, até hoje, causa muita discussão antes política do que literária.
Boris Pasternak era um poeta simpático ao comunismo, mas o comunismo infelizmente não interpretou a obra dele da mesma forma, qualificando-a de "pequeno-burguesa". Com isso, o escritor passou a ser perseguido pelo regime até que foi exilado.
Dessa história nasceu a inspiração de Pasternak para Doutor Jivago, que conta a saga de um médico que, também, poeta, teve seus escritos censurados e proibidos.
A polêmica em torno da premiação baseou-se muito nas críticas que Pasternak fez, em Doutor Jivago, ao regime comunista, principalmente na era Stalin, e na desilusão que ele mostra ao longo da narrativa.
Especulou-se (e especula-se), por isso, que o prêmio a Pasternak teria sido apenas um pretexto para mais uma propaganda anticomunista (eram anos de Guerra Fria) e mostrar a desilusão de um soviético com o governo de seu país.
Bom, depois de ter lido o livro não acredito que a premiação tenha sido apenas política, já que o livro me pareceu ter bastante qualidade. Claro, nunca se sabe a opinião dos críticos literários - eles não costumam gostar de muitas das coisas
que eu aprecio e vice-versa.
Além disso, a primeira versão de Doutor Jivago não saiu na União Soviética, mas apenas na Itália, pelo diretor milanês Giangiacomo Feltrinelli, integrante do Partido Comunista italiano. Em território soviético mesmo, o livro só foi lançado em 1989, tornando-se um best-seller.
De qualquer forma, acho interessante a história do Boris Pasternak e,fazendo uma busca no amigo Google, não encontrei os poemas do escritor. AInda que não tão famosos quanto seu livro, fizeram bastante sucesso em sua época.
Pela raridade que eles parecem ter se tornado - pelo menos em português na internet, resolvi postar esse, com o qual simpatizei:
Outono
Deixei que se perdessem meus amados
e há muito desconheço seus destinos,
e, dentro da alma à natureza infinda
tudo recende em sólidos perenes.
Vivo contigo aqui nesta cabana,
neste bosque tão ermo, tão deserto;
E as sendas, como na canção silvana,
são de pronto apagadas pelas ervas.
E assim, pois, nos contemplam bem de perto
essas tristes paredes de madeira.
Se jamais prometemos grandes gestos,
a nossa morte, enfim, será sincera.
Passamos duas horas assentados:
enquanto leio, bordas coisas claras
e, no raiar da aurora, distraídos,
não sabemos quando os beijos cessaram.
Passai, ó folhas, em vossa beldade
descuidada, passai entre sussurros,
que o cálice da véspera se acabe
a transbordar de angústia mais escura.
Sublimação, fascínio intemporais!
Que o fragor de setembro nos proteja!
E dentro dos sussurros outonais
tu desmaies ou percas a cabeça!
E tal como no bosque as folhas lassas
assim deixas cair os teus vestidos,
quando, esquecida de ti, eu te abraço,
nessa veste sedosa e delicada.
Ah, és o bem de um passo temerário,
quando viver não passa de um desgosto;
mas a beleza é sempre refratária,
e nisto se aproximam nossos rostos.
(Tradução de Zoia Prestes)
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