O anúncio da morte de Jojoy hoje, um dos líderes das Farc, me motivou a escrever um pouco mais sobre o que vi na Colômbia nos dez dias em que estive por lá em agosto. Como comentei no post anterior, um dos dias mais marcantes foi quando estive em San Juan de Pasto, em Nariño, e conversamos com organizações populares e ouvimos histórias e depoimentos de moradores do local.
Fiquei muito tocada, de verdade, quando uma senhora da região foi chamada para relatar à missão sua história. Como imaginei, era um caso de violência e morte. Em uma diferença de cinco meses, em 2008, ela perdeu dois filhos, uma nora e os dois netos. Paramilitares e agentes da Força Pública foram os responsáveis pelas execuções, ao tomar ambos como guerrilheiros. Sem base, sem provas. Não existe direitos humanos na Colômbia.
Mais do que o depoimento em si, me chamou a atenção a reação da senhora. No momento em que ela se aproximava de relatar a primeira morte, começou a chorar, meio sem querer. De repente as lágrimas saíam e ela não controlava mais. Em qualquer outro contexto eu teria chorado também, porque aquela senhora parecia tão indefesa naquele momento, sem auxílio, sem esperança. Com medo das ameaças, teve que sair da cidade onde morava. Como última frase, deixou no ar: “Essa é toda a desgraça da guerrilha. Sair e deixar o que não se tem pra mendigar”.
Pude conversar com ela depois da reunião. Ao sermos apresentadas, me deu um abraço. Era evidente que ainda estava nervosa por relembrar sua história. Contou mais alguns detalhes dos assassinatos e seguia com as lágrimas. Sei que esse é apenas um caso entre milhões de colombianos afetados pelo conflito armado e que talvez eu ainda presencie coisas mais terríveis no mundo, mas a injustiça contra aquela senhora, tão simples, tão humilde, foi algo que doeu, mesmo.
Além dela, houve outro caso. Outra senhora, outra mãe, esta com fortes traços indígenas. Outro filho assassinado. Há dois anos ele foi vítima de um grupo guerrilheiro, que o acusou de colaborar com o governo. Um bilhete enviado pelo próprio grupo foi o aviso da morte. A última notícia de um corpo que nunca foi encontrado. O caso foi relatado pela filha. A mãe não tinha condições de falar. Ficou chorando ao lado. Recordar aquela ausência parecia insuportável.
Por fim, quando terminava o depoimento da filha, a mãe se levantou. Pediu licença e fez um apelo. “Quero fazer um apelo aqui. Eu estou doente, tenho insuficiência renal. Não vou durar muito. Mas quero encontrar meu filho antes, quero pelo menos dar um enterro decente pra ele”.
As duas mães se reencontraram no final do encontro. A mãe indígena me cumprimentou de uma forma muito amistosa e fez o mesmo pedido. “Filha, me ajuda a encontrar meu filho”. Sem condições de ajudá-la, prometi que traria para o Brasil todos os casos para tornar conhecida a situação da Colômbia. Por enquanto é o que tenho tentado fazer. Mas sei que ainda é pouco perto do que gostaria.
Já escrevi que o medo dos colombianos é inacreditável. Tive outra prova nessa reunião. A primeira moradora da região, membro não lembro agora de qual entidade local, pediu novamente a palavra no final, quando contou um caso de violência contra sua família. “Estava com medo de falar, mas vi que todas estão falando e então também vou falar”.
Em momento algum as pessoas parecem se sentir seguras. Mesmo aquele local sendo uma casa de repouso, segura, com pessoas conhecidas e de confiança, sempre parece haver uma sombra de ameaça que só eles conhecem.
São questões ultradifíceis e até meio existenciais, mas que mal fizeram todas essas senhoras, toda essa gente, pra tanto sofrimento e tanta violação...
Fico ainda mais desanimada ao perceber a dicotomia a que as pessoas reduzem a Colômbia, como se todas as questões se limitassem a uma guerra entre Farc e governo. O país é complexo demais e há muitos interesses, externos e internos, para uma solução tão simples como se pleiteia.
Um comentário:
De tradutores a limitadores da liberdade. Qt mundo acontencendo a nossa volta.
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