26.11.13

humanidades

Essa história aconteceu há muito tempo - mais de ano, talvez - e foi uma daquelas que, na hora, entrou para a interminável lista mental "quero escrevê-la para o blog". Acabei deixando de lado a ideia, bem como tantas outras que me surgem a toda hora. Mas a vontade de retomar o blog e esse texto no Cão Uivador me fez resgatá-la do fundo do meu baú de memórias paulistanas.

Na volta para casa, depois de um dia de trabalho, pego um ônibus da linha 805L-10, que sai do terminal Princesa Isabel, no centro, em direção à Avenida Paulista e ao simpático bairro da Aclimação. Uma viagem como tantas outras, não fosse o cobrador e o motorista serem novos naquele itinerário. Sim, ambos. Sim, e na mesma viagem. Nem um nem outro tinha ideia de como chegar ao destino final. O jeito que os dois encontraram, logo ao sair da garagem, foi recorrer ao aplicativo mais antigo do mundo, o ato de perguntar a quem já sabe - nesse caso, aos passageiros. Como é comum que as pessoas peguem a mesma linha todos os dias, não foi difícil para cada um dar sua contribuição com um "agora vai reto", "no próximo ponto vira à direita", "sobe a Consolação", "faz aquela curva" etc. Eu mesma dei meus pitacos quando não havia mais ninguém a quem o cobrador, muito boa gente, pudesse recorrer. Desci já no bairro do Paraíso e, até aquela altura, havia sido uma bela e tranquila viagem.

Não fosse, claro, a atitude histérica de algumas pessoas. Uma moça chegou a ficar nervosa enquanto bradava que-absurdo-vocês-saem-da-garagem-sem-GPS-onde-já-se-viu. E mais gente foi acometida desse pânico, como se estivéssemos no meio do Oceano Pacífico, à deriva, e não na Avenida Angélica. No meio do pânico de meia dúzia no ônibus não me aguentei e disse para o cobrador, "uma vez as pessoas davam a volta ao mundo sem saber para onde iam, agora não conseguem ir até a esquina". "Pois é", concordou ele, também indignado com aqueles surtos.

De fato um GPS poderia ter ajudado o motorista, economizado algumas preocupações, mas no fim das contas não deu tudo certo? As pessoas não estavam ajudando? Eu achei a viagem super divertida, cheia de vozes, movimentos e opiniões - até porque, se houvesse o tal GPS, o mais provável é que nenhuma daquelas pessoas estivesse conversando e interagindo. Estaria cada um com a cara enfiada no seu mundo. Eu mesma em algum livro ou no MP3.

Para além do estresse paulistano, desnecessário em 99% das ocasiões, me chamou a atenção a dependência bizarra à tecnologia. Conheço pessoas que mal saem de casa agora sem um GPS. Outras ficam quase loucas sem celular. Sem internet, então, é como se perdessem o braço. Eu gosto muito de tecnologia, apesar de não ser a mais adepta às parafernálias. Vejo o lado de facilitar a vida, a possibilidade de acesso à cultura, o contato com gente querida que mora longe. Mas a última coisa que quero é que a tecnologia destrua o que eu tenho de mais humano, que é a capacidade de pensar e buscar soluções. Dentre elas de perguntar aos outros o melhor jeito de se chegar a algum lugar. Sempre fiz assim e sempre deu certo. Posso demorar um pouco mais para chegar, mas como um dos meus objetivos futuros é desacelerar, isso não será um empecilho. Perguntando a gente acha, com certeza.

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