4.6.07

cão sem dono

Imaginei que o personagem Ciro, de Cão sem dono, pudesse me remeter à Fabico, de algum modo. De fato, porque foi baseado em Até o dia em que o cão morreu, do Daniel Galera, bem elogiado por pessoas (de confiança) que conheço. Mas foi mais do que isso. O tal Ciro é o legítimo fabicano. Nem mesmo estereótipo, quase que real.
Eu ficaria dias com uma folha em branco na mão. Seria ainda pior do que acontecia com as redações do vestibular, quando o pensamento borbulha e forma uma espécie de coágulo que impede sua saída. Eu sei, mais ou menos, o que é um fabicano, mas não saberia explicar. Talvez seja de fato uma entidade metafísica. Ah, que bobagem tão grande isso. Entidade metafísica. Chego agora ao devaneio.
Não achei o filme tão ruim como se pinta por aí. Se foi seu objetivo um retrato de Porto Alegre, conseguiu. Pelo menos a Porto Alegre da classe média universitária, boênia, que vai para a Cidade Baixa e geralmente sai dela para ir no Beco. E, muitas vezes, metida a intelectual.
Foda ser tradutor (não existe emprego); foda morar na Borges (é feio, sujo e barulhento); foda ser pobre (quase morre de fome). Mas o foda mesmo é ser inteligente. Ter percepção do que o rodeia. Da mediocridade, da tristeza, da apatia do mundo, da falta de sentido e da busca por um antídoto que não se sabe qual é. Dá vontade de chegar pro Ciro e dizer que aquela angústia um dia vai passar, que é o tempo, que é a chuva, o frio, talvez a derrota do time que desanimou. Dá vontade de dizer tudo isso. Mas ele é inteligente demais pra acreditar na farsa. Mas, como dizia Lester Burham, em Beleza Americana, "eu queria dizer que tudo isso vai passar, mas não vai".

Um comentário:

Joseane disse...
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