"Em uma ação de marketing, a Polícia Militar de São Paulo repetiu ontem uma incursão antidrogas em uma favela apenas para que pudesse ser filmada e fotografada pela imprensa. Eram cerca de 10h na favela Alba (zona sul), onde moram 7.500 pessoas. A incursão dos PMs havia acabado momentos antes, registrada só por uma equipe da TV Globo e três fotógrafos -entre eles, um da Secretaria da Segurança Pública. Com a intenção de "desestruturar o tráfico de drogas e estreitar laços com a comunidade", policiais tinham entrado na favela, na chamada Operação Saturação, enquanto 201 carros da polícia, a cavalaria e um helicóptero a cercavam. No total, 667 homens e mulheres participavam da ação, cujo balanço oficial não foi divulgado. Diante do lamento de jornalistas de outros órgãos de imprensa, que, recém-chegados, não tinham conseguido registrar as cenas, a assessoria de imprensa do governo José Serra (PSDB) interveio. Com isso, uma nova incursão foi organizada pela PM "para que todos possam fazer boas fotos da operação", como disse a assessora Teresa Cristina Miranda. Policiais e repórteres seguiram, então, para dentro da favela. Todos vestindo coletes a prova de bala da PM. Esta incursão durou cerca de 35 minutos e, segundo a própria polícia, ninguém foi preso e nenhuma arma ou droga foi apreendida. Três repórteres fotográficos, entre os quais um do "O Estado de S.Paulo" e um do "Diário de S.Paulo", e três cinegrafistas, sendo um do SBT e outro da TV Bandeirantes, acompanharam seis policiais, que revistaram moradores em vielas. Enquanto ocorria a incursão, um helicóptero da PM fazia manobras, chamadas de "desembarque tático", onde nove policiais se revezaram em breves vôos rasantes sobre a favela, descendo a 80 metros dali. Antes de o helicóptero tocar o solo, os policiais saltavam e apontavam suas armas para o horizonte, na direção da favela, em movimentos de combate. Segundos depois, eles recolhiam as armas e caminhavam para uma van que os levava de volta ao ponto de decolagem do helicóptero, a 500 metros da favela, em uma quadra esportiva, para repetir o mesmo sobrevôo e os mesmos movimentos. A reportagem contou 20 sobrevôos e desembarques naquela área. O último vôo da manhã aconteceu às 12h18, oito minutos após o término do "replay" da incursão feita pela PM. Questionado pela reportagem, o comandante da operação, coronel Joviano Lima, explicou que a manobra "desembarque tático" tem o objetivo de "exibir a força presente" e "mostrar que temos dezenas de homens desembarcando ali o tempo todo, uns vestindo verde, outros vestindo preto..." Ainda segundo Joviano, "esta cena toda faz parte da ação". A reportagem da Folha não participou da incursão, ficou do lado de fora da favela. A Secretaria da Segurança Pública nega que a nova blitz tenha sido organizada apenas para divulgação na mídia. Teresa disse que, de fato, trabalhou para que os jornalistas tivessem imagens melhores, mas apenas pediu que a PM autorizasse o acompanhamento das equipes em ação já prevista. A Folha questionou outros policiais presentes na operação sobre o motivo da segunda incursão. Eles confirmaram que serviria exclusivamente para mostrar aos jornalistas. Na operação, funcionários da Subprefeitura de Santo Amaro derrubaram barracos de moradores, mesmo sem autorização judicial. A assessoria da subprefeitura afirmou que a retirada das moradias foi um erro e que será estudada uma solução para as famílias. "Com a imprensa por perto, a polícia nos tratava bem. Longe, todo mundo era tratado como traficante", afirmou Flaviane dos Santos Ferreira, 24, que perdeu o barraco na operação de ontem da PM".
Essa saiu na Folha de S.Paulo dessa quinta-feira, 13 de setembro, assinada pelo repórter fotográfico Caio Guatelli. Agora, não é um representante de ONG de Direitos Humanos, um sociólogo ou um militante da esquerda denunciando o teatro das polícias dentro das favelas. Quem denuncia é um jornalista da mídia "respeitável". É muito bom aparecer na mídia como braço competente do Estado, mostrando serviço . Só que nessa "incursão" ninguém deve ter chutado esporta de morador nem estapeado possível "suspeito". Aqui no Estado, costuma ser comum nos jornais operações semelhantes da polícia, geralmente assinadas pelos mesmos repórteres. Só que jamais se pincelou nas páginas qualquer notinha semelhante a da Folha, sobre a artificialidade das manobras. Tudo é espetáculo. E quase tudo é mentira.
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