15.1.08

apesar dos maus, os bons sobrevivem

Tenho assistido e colocado a mão em alguns materiais que me tem chamado muita atenção. Primeiro foi o Bandido da Chacrete, do Julio Ludemir, o melhor livro de jornalismo dos últimos tempos na minha vida – provavelmente o melhor. É sobre o Paulo Cesar Chaves, um dos fundadores do Comando Vermelho. Pra quem gosta de crime e submundo, histórias sobre os assaltantes de banco “clássicos” e cadeiões o livro é um achado. Ele narra, ainda, partes da vida do Zé Renato, um dos fundadores do Terceiro Comando e que termina a vida catando latinhas no Rio de Janeiro. Com o dinheiro, ele paga um almoço no bandeijão, única refeição que não obtém no albergue onde mora. Esse Julio Ludemir é gênio.

Já no sábado eu assisti à Estamira, a história da catadora do Rio de Janeiro que se diz encarregada de dizer a verdade aos homens. Gostaria de saber quem encontrou essa personagem fantástica, a Dona Estamira. No meio de um lixão, ela põe o telespectador a questionar se é maior a loucura dela em não querer fazer parte deste mundo ou se ele mesmo, que continua a viver em um universo que não tem a mínima lógica e traz tantos martírios. Acredito que o documentário se estende demais, podia ser um pouco mais curto. Mas como aula de jornalismo de verdade, é irreparável e invejável.
Nesta segunda-feira pela manhã, uma visitinha ao site do meu ex-professor Ungaretti (que, aliás, me sugeriu os títulos acima e muitos outros) me mostra a história de alguém que um dia foi Alexandre e hoje é Pati. Uma história das ruas de Porto Alegre, de um daqueles seres invisíveis que povoam a cidade com lendas, mas nunca com lembranças nítidas. O texto é curto, simples, um exemplo de deriva como o autor mesmo fala. Mas o conteúdo é suficiente pra mostrar que aquele olhar é um olhar jornalístico.

Então eu abro os jornais e vejo que, nas matérias sobre o MST, a principal fonte é a Brigada Militar. Nem uma linha sobre a vida de um campesino desdentado, que porventura tenho perdido tudo com uma safra ruim. Nem uma linha. Onde raios anda as histórias interessantes?
Digo duas coisas diante disso. Primeiro, não fiz uma faculdade toda pra ligar para um coronel da Brigada Militar e perguntar qual o efetivo deslocado (tanto faz para onde, já que ninguém está onde as coisas acontecem mesmo). Segundo, se eu fosse deputada ou presidente ou qualquer coisa assim, eu proibiria tudo que não fosse jornalisticamente verdadeiro de se dizer jornalista. Que inventassem outro nome. Mas que não misturassem tudo como se faz hoje.

5 comentários:

Anônimo disse...

O jornalismo vai sobreviver. Bem longe das redações, dos telejornais e das revistas semanais, mas vai. Tem coisas que ninguém consegue matar, por mais que queiram ;)

Juliano Tatsch disse...

Pois é. Tem sido difícil ver o que se faz na imprnsa brasileira e continuar acreditando na profissão. Apesar da grande repercussão, não tinha lido a matéria que a Veja fez desancando o Che. Li ontem. Aquilo é o maior panfleto da direita mais reacionária que existe no mundo, e não só no Brasil. O absurdos dos absurdos. Pelo que tenho visto, pro jornalismo atualmente vale a mesma máxima dos perfumes: é nos pequenos frascos que se encontram os melhores. O único resquício de verdadeiro jornalismo no Brasil hoje são algumas poucas publicações resistentes e os blogs. O resto, como diria o mestre, é perfumaria. Abraços.

Rafael Terra disse...

Oi Pati!
A Estamira é minha ídola. A sinceridade dela é algo que precisamos muito nesse mundo....Como ela mesmo diz "está cheio de espertos ao contrário nesse mundo".
Abração, Rafael

Anônimo disse...

belo texto. sobre o exercício daquilo que se considera jornalismo, aprofundaria a democracia se isso fosse regulado. ao negar sistematicamente as regras para si, os defensores da 'liberalidade' de imprensa colocam-se autoritariamente sobre a sociedade.

obrigado pela lembrança!

Cláudia Flores disse...

lendo isso percebi que estou com saudades de conversar contigo e com o ungaretti...
beijos, minha flor