Eu não devia usar esse blog para historietas pessoais. Mas um professor na Fabico, há muitos anos, me contou que a gente só deve escrever sobre o que nos incomoda. Então, eu só quero dizer, principalmente para mim, que se tudo der errado em São Paulo eu não fracassei. Se tiver que voltar para casa dos meus pais, sem dinheiro e sem perspectiva, não vai ser uma desgraça. Só chegar em São Paulo e procurar emprego, de repente, parece o suficiente para quem nunca levou a sério a idéia de uma faculdade.
Quanto muito, ainda adolescente, o máximo dos sonhos era fazer um curso na UCS, em Caxias. Mas eu nem sabia como. Talvez eu fosse muito abençoada e ganhasse uma bolsa. Ou conseguisse um emprego em Farroupilha mesmo que pagasse razoavelmente bem, que me permitisse juntar grana para uma graduação. O mais provável, ainda, era arrumar um emprego em uma malharia ou ser caixa de supermercado. Por toda a vida. O segundo grau parecia ser o limite. Eu sonhava, desde pequena, em conhecer o mundo e ser arqueóloga. Mas arqueologia era coisa de cidade grande, muito grande e longe, como o Rio de Janeiro, por exemplo. Nessa época, o Rio dava a impressão de ser em outro planeta, tão impossível parecia chegar lá.
Então, quando eu descobri que poderia fazer faculdade sem pagar nada, em Porto Alegre, decidi arriscar. Descobri também que precisava estudar muito, ainda mais os que vinham de colégio público. Diziam que a Ufrgs “não era para qualquer um”. Foi no esforço que meu pai, desempregado, acertou tudo para eu fazer cursinho. Foram dois anos, mas eu passei. De primeira chamada. De repente, aquilo que parecia tão distante se tornou realidade. E eu, provinciana, me vi na capital do estado, no meio de um monte de gente com dinheiro e sem dinheiro, gente que se matou para entrar em uma universidade federal e gente que ingressou como se fosse essa a ordem natural das coisas.
Jamais quero me envergonhar do meu passado e esconder que precisei morar de favor, em Casa de Estudante, em lugares melhores e bem piores. Que vendi as fichas de ônibus que eu ganhava nos estágios para comprar comida e andava a pé por, realmente, não ter dinheiro para passagem. Que o RU me salvou muito, no almoço e no jantar. De ter acreditado, várias vezes, que eu ia ter que desistir. E eu chorei muitas vezes só de pensar que eu seria obrigada a largar a faculdade não por ser incapaz, mas por não conseguir me sustentar em Porto Alegre. Nada daquilo parecia justo.
Mas eu me formei. Superei não só a imensa vontade de chutar aquele maldito curso que só me ensinou a ser uma foca treinada como a tentação de me mudar para as Ciências Sociais e descobrir se lá é possível ser um pouco repórter. Enfim, agüentei. E, como o “mercado” em Porto Alegre parecia chato e sem perspectiva, pensei na possibilidade de largar o que eu tinha e tentar tudo em São Paulo. Como eu sempre quis. Se eu descobrisse que as coisas lá fossem tão ruins quanto, tudo bem. Se fossem melhores, lucro para mim.
E também São Paulo, que parecia tão impossível, um dia se torna realidade. Eu, que seria bem provável atendente de loja no interiorzão gaúcho, me encontro disputando empregos e vagas em uma das maiores cidades do mundo. Por isso, se tudo falhar, eu não vou me desesperar nem sair xingando todos os santos. Afinal, nada disso, anos atrás, parecia possível. E o Borges mesmo disse que todo fracasso, no fundo, é uma misteriosa vitória.
2 comentários:
Nossa, Pati... Quase chorei lendo o teu texto... Me identifiquei muito, em quase tudo, menos com relação à tua coragem: ainda não cheguei lá. Quem sabe um dia... Continuo torcendo e te admirando muito! Boa sorte querida!!! Mantenha-nos informados sempre! Beijos
"Guarda teu coração
última cidadela do amor
nos ásperos dias de tua juventude
para que esta não se acabe nunca.
(...)
A opressão apodrecerá
antes do fim do verão.
Cada dia que chega,
com sua rosa e sua canção,
vai minando devagarinho
(tu estás vendo e muito mais hás de ver)
os esteios que escoram os muros
da ferocidade escura.
No chão verde da várzea,
rasgando o canavial,
o amor inventará
um rumo de certeira rebeldia."
um excerto do Thiago de Mello ("Horóscopo para os que Estão Vivos", 1966)
beijos e força.
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