Toda vez em que acontece uma situação de agressão, como essa da equipe do jornal O Dia no Rio de Janeiro, vem a esperança de que as redações vão redobrar o cuidado com a segurança dos seus jornalistas. Mas nunca é o que acontece. Quando morreu o Tim Lopes, literalmente chamuscado lá em cima do morro, a Rede Globo foi criticada, os Sindicatos e a Federação tiveram piti e todo mundo exclamou “que horror”, “que seja a última vez”.
Não quero tirar a responsabilidade e a crueldade das milícias cariocas, que tornaram o Rio, como diria minha mãe, a “Casa da mãe Joana”. Dos governos nem falo, porque quem não consegue matar mosquito não vai eliminar um problema tão complexo como o tráfico ou a corrupção na polícia. Agora, os donos de jornal, os chefes de redação e todos os "manda-chuvas" da imprensa têm que estudar formas de cobrir essa violência sem colocar o rabo dos outros em perigo. Se a diretora responsável de O Dia desconhecia que a equipe estava lá, é uma incompetente. Ela é paga pra saber que pautas estão sendo feitas, até onde minha inocência e inexperiência permitem entender.
Como é que um jornal de tanta expressão como O Dia consegue armar um plano tão imbecil de cobertura¿ Colocar uma equipe dentro do morro e fingir que são moradores¿ Isso não é coisa de amador. É de gente ou muito burra ou que não se importa com qualquer tipo de proteção. Os milicianos vivem há anos e décadas dentro das favelas. Eles sabem de longe quem é quem no morro, pelo jeito e pela cara. Obviamente a equipe seria descoberta. E se mandaram uma mulher achando que seria mais respeitada, conseguem ser ainda mais patéticos, já que por lá se vende até a mãe, se duvidar.
Por causa de no máximo meia dúzia de páginas, três trabalhadores foram agredidos e vão carregar um trauma para o resto da vida. Mas eles que se danem, daqui a alguns anos são demitidos mesmo e a história fica para trás. É sempre isso que acontece nessa porcaria de imprensa. Se é para se arriscar a La louca e levar tiro, eu vou para a guerra, onde as coisas devem ser mais organizadas e os correspondentes mais bem preparados. Essa história de jornalista que arrisca a vida pela profissão existe, sim. Mas, na imensa maioria dos casos, como esse, é desculpa para mandar o repórter para qualquer buraco, sem segurança e sem qualquer indenização, se der tudo errado.
E não precisa mandar três pessoas lá para cima para mostrar que as milícias existem. Todo mundo sabe. A idéia era mostrar o cotidiano de uma favela com milícias, os carros entrando e saindo, o pagamento de propina e o terror que causam na comunidade. O mundo inteiro já sabe disso. Agora, pede se um jornal desses manda um repórter para descobrir, no asfalto, quem financia esses grupos, quem está por trás da lavagem de dinheiro do tráfico e para o bolso de quem vai essa grana bem gorda. Da Secretarias de Segurança, só interessam os releases e as estatísticas das apreensões de armas e drogas nas abordagens e operações em morros. Qualquer informação além é pedir demais.
Esse é o jornalismo policial de hoje. Coletivas com os representantes da Segurança Pública e infiltrações de jornalistas despreparados em favelas, só para gravar barulho de tiro e traficantes pé-de-chinelo com uma AR-15 na mão e um pé na cova.
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