21.7.10

sobre a preguiça

É longo. Mas é lindo. Direto da cabeça de um gênio.

"Ah, se eu não tivesse passado de um preguiçoso! Como eu teria respeitado a mim mesmo! Ter-me-ia respeitado precisamente porque teria me visto capaz ao menos de preguiça, porque teria possuído então ao menos uma qualidade definida, da qual estaria certo. Pergunta: quem és? Resposta: um preguiçoso! Teria sido verdadeiramente muito agradável ouvir chamar-se assim. Tu estás então definido de maneira positiva; há alguma coisa então a dizer da tua pessoa... “Um preguiçoso!” – É um título, é uma função, é uma carreira, meus senhores! Não riais disso; é assim. Eu teria sido, assim, por direito, membro do primeiro clube do universo e teria passado todo o meu tempo a me respeitar. Conheci um sujeito cujo orgulho era ser entendido em Laffitte. Considerava essa qualidade uma virtude muito preciosa e não duvidou jamais dela. Morreu com a consciência não somente tranqüila, mas triunfante mesmo, e teve razão. Eu teria nesse caso escolhido uma carreira: teria sido um preguiçoso e um glutão; não um guloso vulgar, mas um gozador, interessando-me por “tudo o que é belo e sublime”. Que pensais? Há muito tempo sonho isso. “O belo e o sublime” pesam como chumbo sobre a minha nuca desde que fiz quarenta anos. Desde que tenho quarenta anos!Mas antes? Teria sido muito diferente! Teria logo encontrado uma forma de atividade adaptada ao meu caráter: por exemplo, beber à saúde de todas as coisas “belas e sublimes”. Teria agarrado cada ocasião de beber à glória “do belo e do sublime”, depois de ter, previamente, deixado cair uma lágrima na minha taça. Eu teria então tornado todas as coisas “belas e sublimes’, teria descoberto o “belo e o sublime” até nas torpezas mais incontestáveis; teria derramado prantos tão abundantes como aquele que deixa escapar uma esponja. Um pintor, por exemplo, compôs um quadro digno de Guê; logo, bebo à saúde desse pintor , porque amo tudo o que é “belo e sublime”. Um poeta escreveu “Como agradar a cada um”, e eu bebo depressa à saúde de cada um, porque amo o “belo e sublime”. Isso me valerá o respeito geral; exigirei esse repeito; perseguirei com minha cólera aquele que mo recusar. Vivo pacificamente, morro solenemente. Não é admirável? Não é delicioso? Teria deixado crescer um ventre tão opulento, teria erguido para o alto um nariz tão gorduroso, teria ornado meu rosto com um queixo tão vasto, que todos ao me verem teriam exclamado: “Eis aí um ser bem real, um ser positivo!”. Como quiserdes, mas é bastante agradável ouvir dizer tais coisas a seu respeito em nosso século, tão essencialmente negativo...”

(Fiodor Dostoiévski - Memórias do Subsolo)

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